PURITA


[na mouche*]

Estou cansado, é claro,
Porque, a certa altura, a gente tem que estar cansado.
De que estou cansado, não sei:
De nada me serviria sabê-lo,
Pois o cansaço fica na mesma.
A ferida dói como dói
E não em função da causa que a produziu.
Sim, estou cansado,
E um pouco sorridente
De o cansaço ser só isto —
Uma vontade de sono no corpo,
Um desejo de não pensar na alma,
E por cima de tudo uma transparência lúcida
Do entendimento retrospectivo...
E a luxúria única de não ter já esperanças?
Sou inteligente; eis tudo.
Tenho visto muito e entendido muito o que tenho visto,
E há um certo prazer até no cansaço que isto nos dá,
Que afinal a cabeça sempre serve para qualquer coisa.

Álvaro de Campos, in "Poemas"

* ou de como a maior parte das vezes alguém já conseguiu explicar por palavras o que outro também sente.

2 Responses to “[na mouche*]”

  1. # Blogger ivan

    na mouche para os dois...


    obrigado.  

  2. # Blogger intruso

    e vão na 3, já agora.
    (na mouche mesmo)


    já esteve pelo intruso, entre outros (vários) cansaços.


    :)  

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